20 de fev de 2008

O silêncio das cidades

Por Ronaldo Correia de Brito

"Cada vez menor, o planeta está ao alcance de todos. Não há cidadezinha que não tenha sua meia dúzia de lan houses ou cyber-cafés"

Centenas de motos giram em torno da praça, em frente à igreja da cidadezinha de interior.
Os motoqueiros aceleram e buzinam. O barulho é insuportável.
Lembro imediatamente a cena final de "Roma", do cineasta italiano Fellini. No filme, motoqueiros giram em torno do Coliseu romano. A idéia é de um choque entre a modernidade e o antigo. Aqui, na cena que presencio, a idéia é de que não existe mais o silencioso e mítico mundo rural, pelo menos como se imaginava nos romances e nas canções.Tudo virou cidade. Metade da população do Brasil vive em cem cidades grandes. Oitenta por cento da população do Brasil vive em cidades de até vinte mil habitantes. O que resta fora desse cálculo é bem pouco. Pessoas que não moram nas cidades gravitam em torno delas. O campo se esvaziou em todas as regiões do mundo e no Brasil não seria diferente.
Os pequenos proprietários do Nordeste brasileiro venderam suas terrinhas e hoje moram nas periferias das cidades, sobrevivendo de uma aposentadoria e outros pequenos benefícios. Aos velhos se agregam filhos desempregados e netos, que comem do mesmo aposento. É um novo modelo de agrupamento social. As aposentadorias rurais beneficiam pessoas que nunca contribuíram com a Previdência, e que há muito tempo não moram no campo.
As novas gerações não se interessam pela terra, a não ser os que pilotam aviões de pulverizar veneno, sobre extensas propriedades do Sudeste, Centro Oeste ou Sul; ou os que sentam ao volante de um trator de aragem e colheita. No Nordeste, após a falência do antigo modelo de agropecuária, surgiu uma população sem perspectiva de sobrevivência no campo.
O caminho natural foi a periferia das cidades. De início, São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília. Mais tarde, as fronteiras se alargaram para o restante do mundo.
Cada vez menor, o planeta está ao alcance de todos. Não há cidadezinha que não tenha sua meia dúzia de lan houses ou cyber-cafés. Não há rapazinho, por mais pobre, mais iletrado, que não navegue na Internet e não acesse o messenger ou o orkut. Há cinqüenta anos, um slogan da Rádio Clube do Recife escandalizava pela presunção: Pernambuco falando para o mundo. Agora, todos os matutinhos pernambucanos falam com o mundo.
Existe nas pessoas uma permanente ansiedade em falar com alguém, em se plugar no planeta. A solidão, compreendida como estar consigo mesmo, tornou-se insuportável. Todos querem dizer alô, de preferência virtualmente. Ou ficar em meio à multidão, mesmo que nada se escute ou nada se fale. Há sempre muito barulho e a voz humana tornou-se débil demais nas cidades grandes; para se ouvi-la, é preciso amplificá-la.
Voltamos ao tribalismo, mas numa versão solitária. Porque nas tribos, as relações entre as pessoas eram reais. Nas cidades, nossa aparente forma de convivência é virtual
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