30 de mai de 2008

Aids em Uganda: o moralismo funciona

Direto do Blog Pé na África - Folha de Sõ Paulo - UOL

KAMPALA (UGANDA) – Falei quase nada sobre Aids até agora, o que é uma falha, visto que a doença virou uma marca registrada desse continente.
Então é bastante apropriado que eu toque no assunto aqui, em Uganda. Aids é uma obsessão nesse país, quase uma mania nacional. Por onde você anda, vê centros clínicos, ONGs, igrejas, escolas, com aconselhamento de prevenção ou tratamento para HIV/Aids etc. etc. E placas, cartazes, faixas, tudo que se refere à doença.
De vez em quando é bom ver uma história de sucesso nesse continente, só para variar, e o combate à Aids em Uganda é um sucesso inquestionável. Há 15 anos, cerca de 30% da população tinham o vírus; hoje, são 6,5%.
Enquanto outros países perdiam tempo fingindo que nada acontecia, e até negando que HIV cause Aids (como na África do Sul, onde a taxa é de mais de 20%), os ugandenses agiam para conter a doença. Falar sobre o assunto, assumir o problema e discutir candidamente foi o primeiro passo. Mas teve mais.
Uganda trata a Aids de uma maneira como nós nunca faríamos no Brasil. Uma maneira inusitada, para dizer o mínimo. E assumidamente moralista.
Um exemplo do que acontece por aqui: imagine que você é um oficial do governo e precise traçar uma estratégia para reduzir a incidência de Aids junto a caminhoneiros. Em vários países, esse é um grupo delicado: estão sempre longe de casa, cruzam fronteiras, são cercados por prostitutas o tempo todo. São potencialmente um fator de disseminação da doença. E muitos chegam em casa e podem contaminar suas esposas.

 

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Diz o pôster (aí em cima): “um motorista responsável se importa com sua família; ele é fiel a sua mulher”. O foco não é tentar fazê-lo se proteger quando dormir com prostitutas. Mas tentar convencê-lo, antes de tudo, a não ter a relação sexual. Parece ingênuo, mas o governo acha que funciona. E talvez funcione mesmo.
No Brasil, a ênfase das campanhas contra Aids é no sexo seguro: use camisinha, em outras palavras. Em Uganda, a promoção dos preservativos é apenas a perna mais fraca de um tripé que conta também com a promoção de abstinência e a fidelidade.
O slogan do governo é ABC: A é a inicial de abstinência, B é de “be faithful”, ou seja fiel, e C é para condom, ou camisinha.
Uganda é um país com forte influência das igrejas católica e evangélicas. O presidente, Yoweri Museveni, é, a exemplo de George Bush, um “born again christian”, ou seja, um cristão renascido, que descobriu sua fé no meio da vida. A primeira-dama, Janeth, é ainda mais religiosa.
Não surpreende, então, que o governo coloque tanta ênfase nas letras A e B. Abstinência é direcionada aos jovens, principalmente de menos de 25 anos, idade média em que eles se casam, incentivando-os a se manter virgens até o altar.
O B é dedicado aos casais, pedindo que sejam fiéis. Só em último caso, se a pessoa não conseguir se abster ou for um pulador de cerca contumaz, vem o C: pelo menos use camisinha.
Percebeu a diferença? O enfoque tradicional em vários países, inclusive no Brasil, é centrar fogo na camisinha. Em Uganda, camisinha é um último caso, quase o recurso dos pecadores.
Hoje conversei com representantes de duas ONGs, esperando ouvir algumas críticas à política do ABC. Nada. Aprovam 100%. Há um consenso nacional em torno do tema. Sobra para organizações estrangeiras descerem o pau, dizendo que é irreal esperar que um jovem de 20 anos se mantenha virgem.
Mas os números estão aí, desafiando o que diz a lógica e a convicção de muitos (como eu). São um tapa na cara dos céticos.

27 de mai de 2008

Cinema perde Sydney Pollack

Morreu o ator, diretor e produtor Sydney Pollack, aos 73 anos, em decorrência de um câncer, informou a imprensa norte-americana na noite desta segunda-feira (26).

Com saúde debilitada desde agosto do ano passado, quando pediu licença para fazer tratamento, Pollack faleceu em sua casa, no subúrbio de Los Angeles, no bairro de Pacific Palisades, rodeado por sua família, por volta das 17h (21h de Brasília), segundo informações repassadas à revista Variety e ao New York Times.

Versátil, Pollack dirigiu sucessos que marcaram a história de Hollywood, como Tootsie (1982) e Entre dois amores (1985), com Meryl Streep e Robert Redford, com o qual ganhou dois Oscar, entre eles o de melhor direção. Fez também participações como ator nos filmes De Olhos bem fechados, de Stanley Kubrick, e mais recentemente em Conduta de risco, de Tony Gilroy, em que seria novamente indicado a uma estatueta da Academia.

Começou a carreira no teatro, mas se notabilizaria atrás das câmeras a partir dos anos 60. Seu primeiro trabalho foi em 1962, no filme Obsessão de matar. Em 2005, dirigiria seu último filme, A intérprete, estrelado por Nicole Kidman e Sean Penn. O ator pode ser visto no recém-lançado O melhor amigo da noiva, comédia com Patrick Dempsey. Sydney Pollack deixa mulher e duas filhas.